A PEDRA DO DEMO (conto)

A pedra do demo

Acordei espantado com o sangue que havia em minha roupa e em minhas mãos. Lembro vagamente de um pesadelo horrível: teriam matado os meus pais. Nele eu sonhara que estava sendo perseguido em minha casa por dois monstros que me roubavam tudo, até a pedrinha que tinha o poder de me trazer felicidade.

Procurei meu cachimbo da paz, estava amassado e cheio de matérias orgânicas recentemente incrustadas, parecia algo como gordura, óleo e sangue. Pensei o que seria aquilo. No pesadelo que tivera, lembro-me de alguém te-lo arremessado na parede e, por pouco, isso não me enlouqueceu completamente, mesmo em sonho. Aliás, foi justamente neste ponto que não lembro mais de nada. “Sonho ou realidade?”

Chamei minha mãe. Ninguém respondeu. Nenhum sinal de vida. Não gosto de falar nada ao meu pai, ele me bate sempre e, muitas vezes, me deixa acorrentado por horas. Às vezes dias. Não gosto dele. Ultimamente estão sempre reclamando de mim e me dizem absurdos; chamam-me de filho do demo… Grito mais uma vez por minha mãe, ninguém responde, o mesmo silêncio. Será que saíram ambos? Se tivessem saído teriam me acorrentado, mas estou desamarrado em minha cama, com um gosto ácido na boca, muita sede e alguma fome. Pouca.

É difícil sentir fome ultimamente, mas não consigo viver sem a pedra da felicidade que parece alimentar o meu corpo e a minha alma, se é que ainda tenho uma…

Mas onde estão meus pais?

Sai do quarto. Marcas de que houve uma luta, ou várias, por toda casa. Sala revirada, móveis e ultensílios quebrados. Curioso, não me dei por falta de nenhum objeto. Se fosse um roubo a porta estaria aberta e faltariam algumas coisas de maior valor, como as jóias espalhadas pelo chão. Mas nada falta, exceto a presença deles.

Caminho um pouco mais em direção ao banheiro. Marcas de sangue pela sala. Caminho até o quarto de meus pais. A porta está semiaberta. As marcas de sangue agora são mais visíveis. Vejo logo na entrada do quarto uma grande poça de sangue ainda liquefeito e a porta entreaberta. O desenho macabro de uma mão ensangüentada, como a pedir socorro, que desce pela porta me chama a atenção. O que houve? Vejo o corpo de meu pai inerte com uma faca encravada no peito. Corro para ligar para o 190, mas antes de fazer isso me lembro de minha mãe e do estranho pesadelo que tivera. Será que foi tudo verdade? Nele ela morria estrangulada com violência…

Volto ao quarto com receio de encontrá-la morta. Caminho rápido na ânsia de terminar com toda essa tortura. Meu pai está morto, é uma pena, mas uma pequena perca. Não sentirei tanta falta dele, que me perdoem. Sinto até certo prazer que tenha morrido, mas claro que não gostaria que tivesse sido dessa forma; como um animal selvagem. Com minha mãe, entretanto, tudo é diferente. Quantas vezes ela não me soltou quando eu me encontrava acorrentado? Mesmo contra a vontade do velho…

Caminho até s sala em direção ao telefone. Alguém bate a força efusivamente. Caminho mais rapidamente. Agora gritam lá fora. Vejo minha mãe arroxeada em um canto da casa, com uma toalha enrolada ao seu pescoço, parece está dormindo, apesar de está com os olhos semiabertos. Agora parecem lá fora quererem derrubar a porta. Chego mais perto de minha querida mãe. Ela está morta! Meu deus, quem teve coragem de tamanha maldade?

Abrem a porta estrondosamente, me imobilizam com violência. Batem em meu rosto a ponto de sair sangue por minhas narinas. Alguém me grita em plenos pulmões e quase estoura-me os tímpanos:

_ “Você está preso! Tem o direito de ficar calado… tudo que disser será usado contra você num tribunal…”

Lá fora faz um belo dia, o sol aparece pelas frestas da janela, os pássaros cantam saudando a felicidade.

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2 comentários em “A PEDRA DO DEMO (conto)

  1. A “história” é ficcional, mas poderia ser real… e em muitos casos a realidade é bem pior do que isso.

    Nos alerta sobre o uso das drogas, no caso o crack, que tem vitimado tantos jovens e feito a vida, não só dos usuários mais de todos os que o cercam um verdadeiro INFERNO.

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